quarta-feira, 1 de março de 2006

Quarta feira de cinzas

Quarta-feira de cinzas...

Hoje o dia foi tão chatinho...Não vale nem o comentário. Por isso, vou colocar um texto bem divertido extraído do blog www.blonicas.com.br:

Seu Porra

De Lusa Silvestre

Há quatro tipos de uso do palavrão: a) para intensificar um fato, b) para adjetivar, c) para localizar e d) os palavrões vocativos. Como intensificador, um bom exemplo é o "cacete". Fulano joga bola pra cacete (ou caceta, também muito aceito). O palavrão adjetivador é mais comum: fulano é um merda - no sentido de ser um pária, um filha da puta. O localizador é fácil: vai pra puta que pariu, imaginando-se que então a puta que pariu é longe como Xangri-lá. E, finalmente, o vocativo, o chamamento, o alcunhador: Seu Bosta. "Ô seu bosta, me passa o sal". "Ô seu bosta, vem ver a merda (adjetivador) que você fez" e por aí vai. Até aí tudo bem. Mas veja a graça da coisa: sabendo a dinâmica correta do palavrão, ele adquire independência, possibilitando outros significados. Pegue por exemplo o "caralho" - hipoteticamente falando. Caralho pode intensificar uma ação (fulano joga pra caralho), pode adjetivar ou qualificar algo (fulano é do caralho) e pode ser um palavrão localizador (ex: casa do caralho, ou - menos comum - vai pro caralho). Pode até ser um vocativo: Ô seu caralho ! Embora seja menos comum, não podemos desprezar a eloquência de um "seu caralho" na hora do apuro.
Outro grande segredo do uso da linguagem de beira de cais é a junção de vários palavrões formando expressões complexas. Acontece muito em campos de futebol, verdadeiros laboratórios de pesquisa da linguagem. Ali o xingamento ganha vida; a criatividade supera a correção gramatical. Misturam-se palavrões localizadores com vocativos. Exemplo: "Ô seu juiz bicha do caralho". Um uso diferente do léxico. No calor do jogo é comum até misturar os quatro tipos de palavrão na mesma frase, com evidentes ganhos na ofensividade: "Ô juiz escroto da peida, vai foder com o bandeira, filho da puta". Nesta frase, são tantas as ofensas que chega até a ser difícil saber exatamente quem faz o papel de quem. Tudo bem, avilta-se o português, mas permanece a graça do xingamento. Note inclusive o uso livre da palavra "peida", uma corruptela de "peido", aqui usado como intensificador ou localizador - sabe-se lá.
Porém, há que se tomar cuidado para não exagerar no uso liberal dos palavrões. Quando se busca demais a criatividade, surge o perigo de se perder o caráter ofensivo das palavras. Um bom exemplo eu ouvi no trânsito. Uma mulher tentava entrar à direita, e - não conseguindo - chamou o outro motorista de "Seu porra !". Porra é somente uma expressão genérica, usada para alívio das raivas ou generalizador de objetos (ex:"quanto custa esta porra?"). Quando usada como vocativo - seu porra - ela perde impacto justamente porque o palavrão em si não é agressivo. Só podemos usar palavrões com liberdade quando o palavrão possui força. Ainda mais no trânsito.
Enfim, palavrão é uma instituição; mantém a evolução do português. Além disso, o seu uso garante a saudabilidade das pessoas. É a melhor maneira de extravasar as raivas do cotidiano; limpa as veias e previne o enfarte. Só ter cuidado. Sabendo usar, não vai faltar.

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