quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Dois corações
...O último sonho da sua vida, ou, pelo menos, o última que ela anotou, é esse, datado de um dia antes de sua morte: "Sonhei que abriam meu peito e que eu tinha dois corações. O segundo era pequeno e tinha cor diferente. Estava escondido sob o coração principal, e eles não o viram no começo. Fiquei muito surpresa quando me contaram, mas o médico disse que era completamente normal. A maioria das pessoas tem dois corações, mas não sabe."
Fiquei intrigado com esse sonho, e não só porque foi o último. Afinal, não é verdade que todos temos dois corações? Um coração secreto, encolhido, contraído como um punho, batendo sob o coração normal e aberto que mostramos ao mundo. Lembro-me de uma noite, há cerca de um ano, quando fiquei acordado ao lado de Lexy, sem conseguir dormir. Por algum motivo, comecei a pensar numa mulher que havia conhecido na faculdade.(...)Não foi um relacionamento sério, pelo menos não para ela, mas eu me apaixonei, e me envergonhava perceber que, tantos anos depois, ainda me doía ela não ter me amado. Como pode, me perguntei, estarmos deitados ao lado da pessoa que amamos com total entrega, uma pessoa que amamos mais do que o ar que respiramos, e ainda nos lembrarmos de alguém que nos fez sofrer anos atrás? É a traição desse segundo coração, com sua carne atada, como um dedo amarrado com um único fio de cabelo, azulado pela falta de sangue. E sua vergonhosa pontada. Deitado ali naquela noite, com Lexy ao meu lado, fiquei surpreso ao me ver naquele lugar. Fiquei surpreso por ter vivido toda uma vida naquele meio tempo. E sentado aqui agora, com todos os sonhos de Lexy no colo, percebo que há coisas sobre ela que eu nunca saberei. Não é o conteúdo dos nossos sonhos que escurece nosso segundo coração; são os pensamentos que cruzam nossas mentes nos momentos de vigília, quando o sono não vem. São essas as coisas que nunca contamos a ninguém(...)
Trecho do livro Cães de Babel de Carolyn Parkhurst

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