segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A criança

A criança que fui um dia está guardadinha em mim.
Cabelos lisinhos e curtinhos. Tinha mais olho do que rosto.
Tinha um dentinho de prata
E um "faido" sujo amarrado na chupeta.

Tinha mania de arrancar o lençol do colchão.
E gostava do cheiro do pai.
E de brincar com os vidros de perfume da mamãe.

A criança que eu fui um dia andava de patins
E tinha ciúme da irmã.
Tirava sonequinha com o irmão mais velho
E desenhava suas próprias bonecas de papel

Ela brincava de faz de conta
Gostava do doce de figo da vizinha.
Tinha um vestido com um palhaço
E algumas bexigas que faziam: fom fom, fom fom

A criança que fui um dia também fez umas peraltices:
Atrapalhou o namoro do papai e da mamãe
Fugiu do berço e foi tomar um banho, em plena madrugada
Abriu a testa na bicicleta do priminho
E foi flagrada tomando xarope Vicky

A criança que fui um dia
Vive dentro do meu coração
Às vezes escapa, e ainda brinca
Sorri, se diverte e me pede:
Nunca se esqueça de mim.