sábado, 5 de novembro de 2016

Tanto tempo ser vir escrever aqui para você, filho. Tive a ambição infantil de descrever toda a sua infância por aqui, um desejo que só podia surgir na cabeça de uma mãe de primeira viagem que não tinha a mínima ideia de onde estava se metendo. A maternidade é uma jornada majestosa porém extremamente cansativa, e com a vida que levamos, torna-se praticamente impossível registrar em palavras todas as emoções que acontecem. Porém hoje, meu filho, aconteceu algo que me deu vontade de deixar registraso. Acho que pela primeira vez enxerguei você como um ser independente e não um pedaço de mim.
Estava tentando lhe convencer a não dormir na casa de sua avó por pura preguiça de ter que sair para levá-los. Tentei persuadir você de várias formas, mas você estava irredutível em sua decisão. Até que apelei para a conhecida arma das mães: a chantagem emocional. Falei que iria ficar triste se você fosse dormir fora e me deixar sozinha; entrei na barraca de brinquedo que fica em seu quarto e fingi chorar. Você, imediatamente, entrou na barraca, me beijou, me fez um carinho e disse: - Não chora, mamãe, você não pode ficar triste porque eu vou dormir na vovó. Eu volto amanhã pela manhã, tá bom? Não fica triste.
Naquele momento de fofura eu só consegui pensar que aos quatro anos você já aprendeu duas coisas extremamente importantes: empatia em ver alguém sofrendo, mas ainda assim seguir com o seu desejo. Senti um misto de orgulho e também tristeza, porque entendi naquele instante que quando a vida lhe chamar, quando um desejo nascer em seu peito, você será capaz de ir atrás dele. E isso é bom, muito bom.
Mas foi também a primeira vez que vivi o sentimento de ser deixada para trás e de acreditar nas palavras que eu dizia até então em vão: meu filho é do mundo.

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